O artigo abaixo foi escrito especialmente para o blog por Jefferson Galetti, economista pela Unesp e aluno do mestrado da Unicamp. A descoberta da camada pré-sal de petróleo torna o debate levantado por ele ainda mais urgente.
De forma recorrente, muitas vezes timidamente, volta à tona o debate sobre a composição das exportações brasileiras, e alguns economistas mostram preocupação com a especialização em produtos intensivos em recursos naturais. Com as descobertas pela Petrobrás das imensas reservas de petróleo, novamente algumas vozes se levantaram. Os resultados muito bons do agronegócio e dos produtos extrativos nos últimos anos contribuíram para o crescimento da economia brasileira, mas então por que a especialização estrita em recursos naturais pode não ser tão favorável assim?
De acordo com o ex-ministro da Fazenda, Luiz Carlos Bresser-Pereira, o grande volume de recursos que entraria no país devido às exportações de petróleo, por exemplo, poderia ocasionar uma valorização da moeda doméstica em relação ao dólar num montante suficiente para inviabilizar setores da indústria mais sensíveis ao câmbio – esse um fenômeno conhecido como “doença holandesa”. Os resultados expressivos em recursos naturais poderiam também inviabilizar investimentos em áreas mais avançadas tecnologicamente, por conta do interesse do capital em se direcionar unicamente para os setores cujos ganhos de curto prazo são maiores.
O economista ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2006, Edmund Phelps disse recentemente (Carta Capital, edição 545) que o país precisa se cuidar para não ser apanhado pela “maldição dos recursos naturais”, ou seja, apenas contar com eles sem desenvolver instituições e o espírito empreendedor que promovam processos de inovação.
O que se encontra por trás dessas afirmações é a importância que setores industriais mais avançados têm para o desenvolvimento econômico de um país. Conseguem agregar mais valor à produção de um país. Ou dito de outra forma, são capazes de disseminar ganhos de produtividade, de renda e de emprego para o interior da economia em uma escala muito maior do que as commodities naturais.
Uma saída para agregar mais valor aos produtos intensivos em recursos naturais seria implementar etapas seguintes do processo de transformação industrial. Dessa forma, poderiam ser exportados sapatos em vez de couro, derivados de soja no lugar dos grãos, aço no lugar do minério de ferro, etc. O economista da Universidade de Cambridge, Gabriel Palma, assinalou que esse foi o caminho tomado pelos países escandinavos. Com isso, seriam gerados mais empregos, aumentaria a renda disponível e o consumo e ocasionaria crescimento econômico, iniciando um círculo virtuoso.
Mas esse progresso não ocorre apenas com o funcionamento do mercado. São necessárias vontade política e estratégia de longo prazo do governo para atuar como orientador de investimentos em setores-chave, alocando os recursos provenientes dos recursos naturais para “construir” vantagens comparativas em setores industriais que respondem com maior intensidade ao aumento da renda no exterior.
O desafio enfrentado pelo governo brasileiro é como realizar avanços nos setores industriais sem abrir mão das imensas riquezas naturais do país.
Manchete da Folha Online nesta terça-feira: “Entrada de dólares no Brasil tem o melhor resultado em 12 meses”. Os dados confirmam que foi o maior, mas será que foi o melhor para o país? A chamada não estava em um espaço de opinião, mas de notícias. Talvez o jornalista tenha deixado escapar uma convenção sobre um ponto que não é unânime: os efeitos do crescimento do fluxo de capitais para o país.
Em 2008, houve um crescimento substancial do déficit em serviços e rendas, muito em função do crescimento das remessas de lucros e dividendos, o que aumenta a pressão por resultados comerciais positivos. A estratégia de geração de resultados positivos na balança comercial é utilizada para que o país consiga manter o equilíbrio no balanço de pagamentos, diante das remessas de lucros e pagamentos de juros ao exterior. Esses fatores geraram a idéia tão difundida na imprensa de que conseguir saldos positivos na balança comercial é a realização de um objetivo inquestionável.
A economia brasileira vai crescer 1%, ou até um pouco menos, este ano, com aceleração na virada, e aumento de 4% em 2010. Essa é a estimativa do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, o entrevistado desta segunda-feira no Roda Viva, da TV Cultura. O economista aposta no mercado interno para a recuperação imediata, mas defende que “temos condições e obrigação de pensar no longo prazo”. O BNDES oferece crédito, a juros mais baixos que os de mercado, para infra-estrutura, agricultura, comércio e serviços. Também tem investimentos sociais. Este ano, o banco espera desembolsar mais de 100 bilhões de reais. Em seguida, os melhores momentos da conversa, que passou por vários temas.


