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Archive for março \31\UTC 2009

 

Charge de Quinho Ravelli, publicada no jornal Aqui, de Belo Horizonte

Charge de Quinho Ravelli, publicada no jornal Aqui, de Belo Horizonte

A pergunta acima foi feita por um leitor do blog e tem explicação parecida com outra dúvida recorrente desde o começo da crise: por que a moeda dos EUA, país de origem da crise, tem valorizado? O correto não seria que ela perdesse valor? A resposta está na importância do dólar como moeda internacional.

A crise atual está muito relacionada às expectativas. A qualquer sinal de redução de produção, aumento de desemprego e outros índices negativos, cresce o receio quanto aos investimentos mais arriscados. Com tanta volatilidade, é preciso ter estômago para deixar o dinheiro nesses ativos. As ações das empresas, comercializadas em bolsa, estão incluídas nesse grupo.

Quando vendem suas ações, os investidores buscam ativos mais líquidos, ou seja, aqueles que se convertem mais rapidamente em poder de compra. Um imóvel, por exemplo, é menos líquido do que uma ação de empresa pouco conhecida, que é menos líquida do que uma ação da Petrobrás, por exemplo. E qual é o ativo mais líquido? O dinheiro, e, entre as moedas, o dólar. A elevada demanda por dólar no mercado internacional aumenta o seu valor e, assim, o seu preço.

Os investidores internacionais podem tirar o dinheiro das ações brasileiras e trocá-lo por dólar por precaução ou necessidade: os recursos que vieram parar no Brasil em tempo de prosperidade, animados com a promessa de retorno, tornam-se necessários em uma economia em recessão. É uma segurança ter em mãos, neste momento, a moeda principal de transações internacionais. O movimento que se assiste hoje é também chamado de flight to quality, que nada mais é do que a fuga para investimentos de mais qualidade, ou seja, mais seguros. 

Essa foi a dúvida do Daniel Corrêa. Deixe também a sua nos comentários ou no ícone Sugestões, na barra superior do blog.

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O governo federal prorrogou por mais três meses a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para automóveis. Também diminuiu os impostos cobrados sobre materiais de construção e motocicletas. Essas são medidas de política fiscal, que, juntamente com as de política monetária (como a redução dos juros básicos), compõem o arsenal do governo para amainar os reflexos da crise internacional no Brasil.

Há duas formas de política fiscal: o governo pode alterar gastos ou impostos, ou seja, suas despesas ou sua receita. É importante lembrar que, como no orçamento doméstico, os dois lados estão ligados: se reduzem impostos, os gestores públicos precisam diminuir também as despesas, ou aumentar a arrecadação de outra forma. Dessa vez, o governo espera compensar a renúncia de R$1,5 bilhão com o aumento de impostos sobre os cigarros, que podem ficar até 25% mais caros.

A defesa da redução de impostos em alguns setores não é unânime. Em artigo no Valor Econômico desta segunda-feira, o ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola considera que ela é discriminatória. Para ele, a redução na carga tributária deveria beneficiar a economia como um todo e não apenas setores eleitos pelo poder do príncipe.

Sobre o outro lado da política fiscal, o dos gastos, há um pouco mais de consenso em tempos de crise: torna-se praticamente unânime a defesa de investimentos públicos. Eles cobrem o buraco deixado pelos investidores privados, que ficam retraídos com a instabilidade internacional. Por isso, cobra-se tanto, neste momento, que o governo dê continuidade ao Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), projeto que inclui investimentos em infra-estrutura em todo o país. 

Os gastos do governo são potencializados pelo chamado efeito multiplicador. Os recursos destinados à construção de uma ponte, por exemplo, vão para os bolsos dos trabalhadores. Grande parte desse dinheiro será usada em supermercados, shoppings e pagamento de dívidas. Assim, há uma propagação virtuosa por toda a economia.

Para que as contas não estourem, em tempos de desaceleração do crescimento, é necessário cortar gastos não prioritários. Algum déficit em período de crise não é considerado pecado grave. Os economistas alertam, entretanto, para a necessidade de fazer superávits nas fases de crescimento acelerado, ou seja, gastar menos do que a arrecadação. Nesses momentos, o gasto excessivo do governo pode até minar a iniciativa privada, além de causar desconfianças sobre a sua capacidade de arcar com a despesa no futuro.

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O diretor do Banco Central chinês, Zhou Xiaochuan, sugeriu, na última semana, criar uma moeda desligada de qualquer país para substituir o dólar nas reservas internacionais. A proposta ganha força, em tempos de crise, como forma de reduzir o poder dos EUA no cenário internacional e a propagação dos problemas com origem no país. A ideia foi divulgada amplamente no noticiário como original, mas ela é antiga: foi apresentada por Keynes na reunião de Bretton Woods, há quase 65 anos.

O grupo de países que venceu a Segunda Guerra Mundial encontrou-se na cidade de Bretton Woods, nos Estados Unidos, para redefinir as regras do sistema monetário. Até então, a libra era a moeda de reserva internacional. Para substituir o sistema, o representante da Inglaterra no encontro, John Maynard Keynes, sugeriu a criação do bancor. Seria uma moeda trocada apenas entre bancos centrais. Imaginemos que o Brasil exportasse um avião para os Estados Unidos. A empresa importadora faria o pagamento, em dólar, ao Banco Central dos Estados Unidos. O órgão faria a transferência correspondente, em bancor, para o Banco Central brasileiro, que seria responsável por passar o pagamento, em real, para a empresa exportadora.

O plano de Keynes perdeu, na época, para o de Harry Dexter White, delegado dos EUA. A preocupação dele era efetivar a hegemonia de seu país no pós-guerra. Assim, o dólar virou a moeda das reservas internacionais, como é até hoje. A proposta de Keynes ressurge com a crise econômica internacional. Em artigo para a Época Negócios deste mês, o prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz sugere que o sistema global de reservas precisa de uma reforma e, ao lembrar da proposta do bancor, afirma: Hoje, essa moeda seria usada para substituir o dólar como moeda de reserva de fato, e como não dependeria da boa sorte de nenhum país, seria mais estável.

Mais informações sobre a ideia de Keynes podem ser encontradas no didático artigo Bretton Woods aos 60 anos, do professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro Fernando Cardim de Carvalho.

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Se a redução na taxa básica de juros pode estimular a economia, por que tanta cautela para diminui-la? A resposta está no medo da inflação. Juros baixos significam dinheiro barato. Se o Banco Central exagera na redução e a produção não cresce o suficiente para acompanhar a demanda, pode haver excesso de dinheiro no mercado e, assim, alta de preços. Acertar a mão não é fácil e, por isso, a reunião do Copom para definir a Selic sempre deixa insatisfeitos.

A projeção da inflação é uma das principais questões levadas em conta pelo Copom na hora de decidir a meta para a taxa de juros. Na última reunião, o grupo considerou que o ritmo de expansão da demanda diminuiu nos últimos meses de 2008. Ou seja, o risco de inflação estaria menor. Mas revelou-se receoso com os efeitos da instabilidade internacional sobre nossos preços. Para perseguir a meta de inflação de 4,5% para 2009, decidiu reduzir a Selic em 1,5 ponto percentual. Alguns economistas defenderam que a variação não poderia ser maior e que deve mesmo ser gradual.

Para as associações de industriais, comerciantes e trabalhadores, assustadas com a crise mundial, a reação do governo foi muito fraca. O economista Delfim Neto, ex-ministro da Fazenda, considerou, em sua coluna no Valor Econômico, que perdemo-nos no labirinto de um perigo inexistente: o substancial aumento da taxa de inflação! Para ele, já passou da hora de o Banco Central iniciar uma política monetária mais agressiva. Agora resta-nos esperar a próxima reunião do Copom, marcada para os dias 28 e 29 de abril.

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A cada 45 dias, a palavra Selic multiplica-se no noticiário econômico brasileiro. É quando ocorre a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. Na última delas, no dia 11 de março, o Copom decidiu reduzir a taxa básica de juros em 1,5 ponto percentual. Assim, a meta para a taxa Selic ficou em 11,25% ao ano. A redução foi a maior desde 2003, mas deixou muitos insatisfeitos. Diante da crise econômica mundial, muitos países reduziram a taxa para próximo de zero. 

A Selic é a principal taxa que remunera os títulos públicos, ou seja, são os juros recebidos por quem empresta dinheiro ao governo federal. O Copom define uma meta para ela, que funciona como uma ordem para outro setor: o de operações de mercado aberto. A redução da meta é um aviso para que esse departamento compre títulos da dívida. O dinheiro volta às mãos de quem emprestou ao governo. Assim, reduzir os juros é aumentar a moeda circulante. Mais dinheiro no bolso significa mais consumo e mais investimento. Industriais e investidores cobram esse estímulo, especialmente em tempo de crise.

É o fato de ter mais dinheiro circulando que reduz as taxas de juros. Os juros são o preço do dinheiro. Assim como quanto maior for a oferta de maçã na feira menor será seu preço, quanto mais dinheiro houver no mercado, menores os juros. A taxa básica de juros pode servir como inspiração para o mercado, mas não há um consenso sobre se realmente influencia o crescimento da Economia. Uma coisa é certa: sua redução diminui os gastos do governo com os juros da dívida pública. Além disso, pode tornar mais lucrativo aos bancos emprestar do que investir em títulos, movimentando o crédito. É claro que esse resultado pode falhar se os bancos avaliarem que o risco de inadimplência é alto.

Para definir a meta, o Copom analisa vários dados da economia, como o nível de atividade, as finanças públicas e o balanço de pagamentos. A atenção principal, entretanto, é sobre a inflação. Um relatório é apresentado na semana seguinte à divulgação da taxa e pode ser acessado no site do Banco Central. A análise da relação entre juros e inflação fica para a próxima!

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O jornalismo econômico ganhou espaço próprio no noticiário brasileiro com a ditadura militar. O governo não tinha interesse em divulgar fatos políticos e preferia exibir os dados do período que ficou conhecido por milagre econômico, por causa das altas taxas de crescimento da produção. A falta de democracia e de liberdade de escolha do período favorecia o uso de termos complexos, muitos importados do inglês, que saíam da boca dos especialistas diretamente para os jornais. Estão aí as raízes da linguagem enigmática que encontramos hoje no noticiário.

Mas economia não é coisa de outro mundo. Como lembra o economista Gregory Mankiw, a relação com o cotidiano está na própria origem da palavra: aquele que administra um lar. Ele também recorda a definição de Marshall, economista do século XIX: Economia é o estudo da humanidade em sua vida rotineira. Ela está na passagem de ônibus, nas compras no supermercado, na aquisição da casa própria, no meio-ambiente… É difícil pensar hoje em algum ato cotidiano que não envolva economia.

A Economia não é para poucos. Neste blog, vamos destrinchar os termos da moda que pipocam a cada semana nos jornais e revelar como as decisões econômicas têm reflexo no seu dia-a-dia. Aqui, dúvidas e questionamentos são sinais de inteligência e o jargão transforma-se em bom português.

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