Feeds:
Posts
Comentários

Archive for maio \31\-03:00 2009

De forma recorrente, muitas vezes timidamente, volta à tona o debate sobre a composição das exportações brasileiras, e alguns economistas mostram preocupação com a especialização em produtos intensivos em recursos naturais. Com as descobertas pela Petrobrás das imensas reservas de petróleo, novamente algumas vozes se levantaram. Os resultados muito bons do agronegócio e dos produtos extrativos nos últimos anos contribuíram para o crescimento da economia brasileira, mas então por que a especialização estrita em recursos naturais pode não ser tão favorável assim?
De acordo com o ex-ministro da Fazenda, Luiz Carlos Bresser-Pereira, o grande volume de recursos que entraria no país devido às exportações de petróleo, por exemplo, poderia ocasionar uma valorização da moeda doméstica em relação ao dólar num montante suficiente para inviabilizar setores da indústria mais sensíveis ao câmbio – esse um fenômeno conhecido como “doença holandesa”. Os resultados expressivos em recursos naturais poderiam também inviabilizar investimentos em áreas mais avançadas tecnologicamente, por conta do interesse do capital em se direcionar unicamente para os setores cujos ganhos de curto prazo são maiores. O economista ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2006, Edmund Phelps disse recentemente (Carta Capital, edição 545) que o país precisa se cuidar para não ser apanhado pela “maldição dos recursos naturais”, ou seja, apenas contar com eles sem desenvolver instituições e o espírito empreendedor que promovam processos de inovação.
O que se encontra por trás dessas afirmações é a importância que setores industriais mais avançados têm para o desenvolvimento econômico de um país. Conseguem agregar mais valor à produção de um país. Ou dito de outra forma, são capazes de disseminar ganhos de produtividade, de renda e de emprego para o interior da economia em uma escala muito maior do que as commodities naturais.
Uma saída para agregar mais valor aos produtos intensivos em recursos naturais seria implementar etapas seguintes do processo de transformação industrial. Dessa forma, poderiam ser exportados sapatos em vez de couro, derivados de soja no lugar dos grãos, aço no lugar do minério de ferro, etc. O economista da Universidade de Cambridge, Gabriel Palma, assinalou que esse foi o caminho tomado pelos países escandinavos. Com isso, seriam gerados mais empregos, aumentaria a renda disponível e o consumo e ocasionaria crescimento econômico, iniciando um círculo virtuoso.
Mas esse progresso não ocorre apenas com o funcionamento do mercado. São necessárias vontade política e estratégia de longo prazo do governo para atuar como orientador de investimentos em setores-chave, alocando os recursos provenientes dos recursos naturais para “construir” vantagens comparativas em setores industriais que respondem com maior intensidade ao aumento da renda no exterior.
O desafio enfrentado pelo governo brasileiro é como realizar avanços nos setores industriais sem abrir mão das imensas riquezas naturais do país.

O artigo abaixo foi escrito especialmente para o blog por Jefferson Galetti, economista pela Unesp e aluno do mestrado da Unicamp. A descoberta da camada pré-sal de petróleo torna o debate levantado por ele ainda mais urgente.

De forma recorrente, muitas vezes timidamente, volta à tona o debate sobre a composição das exportações brasileiras, e alguns economistas mostram preocupação com a especialização em produtos intensivos em recursos naturais. Com as descobertas pela Petrobrás das imensas reservas de petróleo, novamente algumas vozes se levantaram. Os resultados muito bons do agronegócio e dos produtos extrativos nos últimos anos contribuíram para o crescimento da economia brasileira, mas então por que a especialização estrita em recursos naturais pode não ser tão favorável assim?

De acordo com o ex-ministro da Fazenda, Luiz Carlos Bresser-Pereira, o grande volume de recursos que entraria no país devido às exportações de petróleo, por exemplo, poderia ocasionar uma valorização da moeda doméstica em relação ao dólar num montante suficiente para inviabilizar setores da indústria mais sensíveis ao câmbio – esse um fenômeno conhecido como “doença holandesa”. Os resultados expressivos em recursos naturais poderiam também inviabilizar investimentos em áreas mais avançadas tecnologicamente, por conta do interesse do capital em se direcionar unicamente para os setores cujos ganhos de curto prazo são maiores.

O economista ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2006, Edmund Phelps disse recentemente (Carta Capital, edição 545) que o país precisa se cuidar para não ser apanhado pela “maldição dos recursos naturais”, ou seja, apenas contar com eles sem desenvolver instituições e o espírito empreendedor que promovam processos de inovação.

O que se encontra por trás dessas afirmações é a importância que setores industriais mais avançados têm para o desenvolvimento econômico de um país. Conseguem agregar mais valor à produção de um país. Ou dito de outra forma, são capazes de disseminar ganhos de produtividade, de renda e de emprego para o interior da economia em uma escala muito maior do que as commodities naturais.

Uma saída para agregar mais valor aos produtos intensivos em recursos naturais seria implementar etapas seguintes do processo de transformação industrial. Dessa forma, poderiam ser exportados sapatos em vez de couro, derivados de soja no lugar dos grãos, aço no lugar do minério de ferro, etc. O economista da Universidade de Cambridge, Gabriel Palma, assinalou que esse foi o caminho tomado pelos países escandinavos. Com isso, seriam gerados mais empregos, aumentaria a renda disponível e o consumo e ocasionaria crescimento econômico, iniciando um círculo virtuoso.

Mas esse progresso não ocorre apenas com o funcionamento do mercado. São necessárias vontade política e estratégia de longo prazo do governo para atuar como orientador de investimentos em setores-chave, alocando os recursos provenientes dos recursos naturais para “construir” vantagens comparativas em setores industriais que respondem com maior intensidade ao aumento da renda no exterior.

O desafio enfrentado pelo governo brasileiro é como realizar avanços nos setores industriais sem abrir mão das imensas riquezas naturais do país.

Read Full Post »

The New York Times pediu aos leitores para que ajudem o jornal a relatar a crise. Qualquer um pode acessar a página na internet e publicar uma fotografia que considere estar relacionada à crise econômica. A chamada é: “Como a desaceleração está afetando a sua comunidade? Que sinais de dificuldade ou resistência tiveram destaque? Como você ou sua família foi afetada? Formas criativas de documentar as mudanças são encorajadas”.

Como uma imagem diz mais que mil palavras, pode-se entender muito sobre os efeitos da crise em todo mundo ao ver as fotografias: lojas fechadas, outdoors em branco, taxistas sem clientes, pessoas desabrigadas, casas e mais casas à venda… Clique aqui para conferir e participar.

Read Full Post »

O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, disse nesta quarta-feira que a valorização do real é um problema e que o Banco Central precisa encontrar formas de “esterilizar” a forte entrada de dólares no país. O termo “esterilizar” é um jargão comum no noticiário econômico, mas o que significa?

O preço do dólar vem caindo, para perto de 2 reais, porque há muito dólar no mercado. A maior parte do dinheiro entra como pagamento por exportações e investimentos, sejam diretos ou em ações das empresas brasileiras e títulos do governo. Como há mais oferta de dólar do que demanda, o preço cai.

O governo reduz a queda do dólar ao aumentar a demanda por ele. Pode fazer isso atuando como mais um comprador, como de fato faz periodicamente. Acontece que quando o Banco Central compra dólares, joga reais na economia. Ele aumenta, assim, a base monetária, formada pelo dinheiro que as pessoas têm em mãos mais as reservas nos bancos.

Mais dinheiro circulando no mercado pode levar a uma queda no seu preço: a taxa de juros. Só que o governo tem uma meta para ela, a taxa básica, Selic. Para garantir seu cumprimento, precisa enxugar os reais que lançou ao mercado. Ele pode fazer isso por meio de operações de mercado aberto, em que vende títulos públicos.

Ao vender títulos de sua dívida, o governo entrega o papel, com promessa de rendimento, e pega de volta os reais que lançou no mercado. É exatamente esse procedimento que se chama de esterilização. Em resumo, o governo toma dólares e entrega reais e, em seguida, toma reais e entrega títulos.

Só para finalizar, vários economistas chamam a atenção para um problema nesse tipo de operação, apesar de sua eficácia no controle da volatilidade do câmbio. Ao final dela, o governo fica com reserva em dólares, grande parte aplicada em títulos do governo americano, e dívida em reais, pelas quais paga os juros brasileiros. Rendimentos nos baixíssimos juros básicos americanos e pagamentos nos altíssimos juros brasileiros? Prejuízo na certa.

Você também pode acompanhar as atualizações do blog pelo Twitter. Clique aqui para conhecer.

Read Full Post »

DólaresManchete da Folha Online nesta terça-feira: “Entrada de dólares no Brasil tem o melhor resultado em 12 meses”. Os dados confirmam que foi o maior, mas será que foi o melhor para o país? A chamada não estava em um espaço de opinião, mas de notícias. Talvez o jornalista tenha deixado escapar uma convenção sobre um ponto que não é unânime: os efeitos do crescimento do fluxo de capitais para o país.

O mês ainda não acabou, mas o fluxo de capitais já surpreende. Entraram no país 3,086 bilhões de dólares a mais do que saíram, segundo o Banco Central. A pergunta que deve ser feita é: qual o destino desse dinheiro?

Sabe-se que pouco menos da metade do saldo entrou no país como pagamento por exportações nos 15 primeiros dias úteis do mês. Como já vimos aqui, nem todos consideram esse resultado como algo a ser comemorado.

Outra parte do dinheiro é resultado do investimento direto estrangeiro no Brasil. Ele ocorre quando um estrangeiro passa a ter 10% ou mais de uma empresa instalada no Brasil, por meio de ações. Pode ser também a instalação da filial de uma multinacional. O problema que o excesso desses investimentos causa, posteriormente, no Balanço de Pagamentos, é a remessa de lucros para o exterior.

O restante da entrada de dólares é ainda mais polêmico. Ele destina-se a comprar ações de empresas brasileiras e títulos do governo. O objetivo é ganhar no curto prazo, seja com a valorização em Bolsa ou com os juros mais altos do que no país de origem. O problema é que esse dinheiro é o primeiro a sair do país ao menor sinal de resultados negativos. Isso alimenta o sentimento de crise e cria uma instabilidade no câmbio.

Por fim, a própria matéria da Folha Online destaca que “a entrada de dólares no país é um dos principais motivos que vem pressionando a cotação da moeda norte-americana para baixo nas últimas semanas”, ou seja, é o que tem feito o Real valorizar-se muito. Como também já discutimos aqui, isso pode prejudicar a competitividade dos exportadores brasileiros, já que eles precisam cobrar mais se quiserem garantir a troca da receita pela mesma quantidade de reais.

É bastante complicado deixar os empregos e a produção ao sabor dos fluxos de capitais e, assim, do sobe e desce do dólar. Dada a polêmica, é melhor evitar os adjetivos qualitativos ao divulgar uma notícia desse tipo. A entrada de dólares teve o maior resultado em 12 meses. Deixemos o melhor ou pior por conta dos comentaristas.

Read Full Post »

O artigo abaixo foi escrito especialmente para o Economia Clara pelo economista, formado na UFRJ e mestrando da Unicamp, Fernando D`Angelo Machado. Ele apresenta uma alternativa à visão tradicional que se tem do Balanço de Pagamentos. O texto trata de três componentes do BP: balança comercial (exportações menos importações de bens), balança de serviços e rendas (inclui fretes, seguros, remessa de lucros de multinacionais, royalties, juros) e conta capital e financeira (entrada menos saída de recursos para investimento no país). As balanças comercial, de serviços e renda e as transferências unilaterais (como doações), formam a conta corrente.

Volta e meia os jornais noticiam o resultado da balança comercial. Quando o saldo é positivo, como o do mês de abril (3,712 bilhões de dólares), os jornais apresentam a informação como se fosse boa para o país. Mas será mesmo que isso é bom? E, se sim, por quê?

Se pararmos para pensar sobre o que quer dizer a obtenção de um saldo comercial positivo, veremos que, na prática, estamos produzindo para o consumo no exterior, pois exportamos mais do que importamos. Não é à toa que em vários países desenvolvidos o superávit na balança comercial não é tão bem visto e nem é um objetivo em si mesmo, como é aqui. Mas fica a pergunta: por que então é assim no Brasil?

É assim porque temos constantes déficits no balanço de serviços e rendas. É preciso compensar com um resultado positivo na balança comercial. Uma conta corrente deficitária, como vem sendo a do Brasil há muitos anos, deixaria o país numa posição delicada, uma vez que ele ficaria mais dependente dos investimentos estrangeiros, ou seja, de uma conta capital e financeira positiva. Se ela for negativa, o país terá que abrir mão de reservas ou se endividar.

A presença constante dos déficits na balança de serviços e rendas explica-se pela grande presença do capital estrangeiro no desenvolvimento brasileiro e pela estratégia de desenvolvimento através do endividamento externo, políticas muito utilizadas em décadas anteriores. A grande presença do capital estrangeiro gera um importante fluxo de remessa de lucros para o exterior, fluxo esse que cresceu após a crise. O endividamento também gera um fluxo de pagamento de juros. Além disso, os altos juros cobrados no país incentivam a tomada de empréstimos no exterior e assim também um maior pagamento de juros.

Fonte dos dados: BacenEm 2008, houve um crescimento substancial do déficit em serviços e rendas, muito em função do crescimento das remessas de lucros e dividendos, o que aumenta a pressão por resultados comerciais positivos. A estratégia de geração de resultados positivos na balança comercial é utilizada para que o país consiga manter o equilíbrio no balanço de pagamentos, diante das remessas de lucros e pagamentos de juros ao exterior. Esses fatores geraram a idéia tão difundida na imprensa de que conseguir saldos positivos na balança comercial é a realização de um objetivo inquestionável.

Read Full Post »

Luciano Coutinho, por Felipe CarneiroA economia brasileira vai crescer 1%, ou até um pouco menos, este ano, com aceleração na virada, e aumento de 4% em 2010. Essa é a estimativa do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, o entrevistado desta segunda-feira no Roda Viva, da TV Cultura. O economista aposta no mercado interno para a recuperação imediata, mas defende que “temos condições e obrigação de pensar no longo prazo”. O BNDES oferece crédito, a juros mais baixos que os de mercado, para infra-estrutura, agricultura, comércio e serviços. Também tem investimentos sociais. Este ano, o banco espera desembolsar mais de 100 bilhões de reais. Em seguida, os melhores momentos da conversa, que passou por vários temas. 

Recuperação da economia

Coutinho dividiu os investimentos brasileiros em dois blocos. Metade deles foi afetada pela crise econômica. Esses empresários teriam cortado investimentos ao perceber o aumento da capacidade ociosa (de 15% para cerca de 25%), ou seja, que uma parte importante da planta e dos equipamentos já instalados estariam fora de uso. A outra metade dos investimentos seria autônoma, não dependeria da conjuntura econômica de curto prazo, mas da expectativa de crescimento médio da economia nos próximos 10 ou 15 anos. Essa parte, segundo ele, tem se revelado muito robusta no Brasil. Aí estariam incluídos investimentos em infra-estrutura, como energia elétrica, logística, transporte e telecomunicações. Outro centro importante de sustentação da economia seria a Petrobrás, sobre a qual seria possível construir uma política industrial, com incentivos a uma cadeia que incluiria estaleiros, sistemas de automação e metalurgia.

Mercado doméstico

O mercado interno, segundo Coutinho, foi preservado na crise: somos uma das primeiras economias a reverter a queda no emprego, em março, e a renda foi protegida por aumento salarial e da renda previdenciária. Ele espera que esses resultados permitam a retomada moderada do consumo, de forma a ocupar a capacidade ociosa nas indústrias (chegando a cerca de 17% em 2010).

Exigências para empréstimos

Luciano Coutinho disse ter feito reunião com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, na última semana, para discutir a regulamentação de um fundo garantidor de empréstimos. Seria uma forma, existente em outros países, de compartilhar o risco, tornando os investimentos viáveis e mais atraentes para as empresas. Deve ser utilizado em obras grandes, cujo período de investimento é longo, como energia elétrica. As medidas tornariam os leilões de concessão acessíveis a mais empresas, criando a possibilidade de tarifas menores para o consumidor final.

Juros altos

O presidente do BNDES defendeu a necessidade de reduzir o patamar de juros no Brasil. Disse, inclusive, que o juro real de longo prazo do próprio banco público pode vir a ser mais baixo, já que é alto em comparação com Coréia, China, EUA e Europa.

Pequenas e médias empresas

Coutinho disse estar muito preocupado com a terrível escassez de crédito privado para pequenas e médias empresas e afirmou que o BNDES repassa cerca de 40% dos seus recursos para a rede de bancos privados atender a essa demanda. Ele estimulou empresários a pedirem, nos bancos, o cartão BNDES, um cartão de crédito que teve o limite ampliado de 250 mil para 500 mil depois da crise, além da redução de juros, para 12% ao ano, e aumento do prazo de pagamento de 36 para 48 meses. Esse tipo de financiamento cresceu 90% nos primeiros meses de 2009.

Empréstimos para investimentos em outros países

Se alguma empresa brasileira ou estrangeira, com sede no Brasil, ganha um contrato no exterior para construir uma hidrelétrica, um metrô, uma aeronave, ou qualquer grande equipamento, o BNDES pode financiar essa exportação. O pagamento é feito à vista ao exportador brasileiro e a empresa estrangeira paga as parcelas ao BNDES. Segundo Coutinho, para cada 100 milhões de dólares em bens e serviços exportados, há uma geração de 20 mil empregos no Brasil. Se não houvesse financiamento, poderíamos perder para concorrentes, especialmente chineses. Na América Latina, as garantias de 94% dessas operações, no ano passado, foram Créditos Recíprocos, em que os bancos centrais comprometeram-se a arcar, coletivamente, com o não pagamento de empréstimos. Em 40 anos, nunca houve um calote. O convênio permite juros baixos, por reduzir riscos dos contratos.

Uso ilícito do dinheiro público

Os jornalistas questionaram sobre o superfaturamento de obras em que o BNDES entra como financiador. Coutinho disse que o banco toma todas as precauções para que isso não ocorra: “se alguma irregularidade ocorrer e for apurada, eu serei o primeiro a utilizar todas as cláusulas de salvagarda para reaver os recursos”.

Dinheiro para os “trambiqueiros”

Luciano Coutinho foi questionado sobre o financiamento para empresas que declararam grandes perdas com especulação em derivativos, chamados de “trambiqueiros” pelo presidente Lula. Ele afirmou que qualquer ajuda do BNDES a essas empresas teve como condição prévia a reestruturação dessas dívidas, que foram refinanciadas com o sistema bancário privado. Isso significa que o dinheiro público deve ser usado para novos investimentos, não para arcar com os prejuízos. Sobre a compra da Sadia pela Perdigão, Coutinho disse que o BNDEs pode participar da oferta pública de ações como qualquer investidor, com o objetivo de ganhar com a valorização da empresa. Quanto à possibilidade de dano aos consumidores, com a redução da concorrência, disse que a operação deve ser examinada pelo Cade rigorosamente.

Estratégia de longo prazo

O presidente do BNDES afirmou que há uma política de longo prazo de desenvolvimento produtivo, que não deve ser esquecida com a crise. Disse que a economia retomou fundamentos reais, depois de superar hiperinflação e alta vulnerabilidade cambial, e que o BNDES está profundamente engajado, revisando as estratégias para recuperar as taxas de investimento. Coutinho considera que há amadurecimento político no sentido de pensar mais no longo prazo e menos no curto.

A gravação do programa Roda Viva, com a presença de Luciano Coutinho, será transmitida na TV Cultura hoje às 22h10. Lembre-se de que você também pode acompanhar este blog pelo Twitter.

Read Full Post »

O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, é o entrevistado, a partir das 9h30, no Roda Viva, da TV Cultura.

Na bancada, além do jornalista Heródoto Barbeiro, a editora de Brasil do Valor Econômico, Denise Neumann, o editor de Finanças da revista Istoé Dinheiro, Milton Gamez, o editor de Economia da Folha de S. Paulo, Sergio Malbegier e a colunista do Estado de S. Paulo, Sonia Racy.

O BNDES tem sido uma importante fonte de financiamento para empresas, diante da contração do crédito privado por causa da crise econômica. Além dessa questão, devem ser debatidas a participação do órgão na exploração do pré-sal, a evolução dos juros básicos, o apoio financeiro à concentração, como é o caso na formação da Brasil Foods.  

Fui convidada para participar da bancada pelo Twitter, mas a minha rede é nova e ainda está em formação. O colega jornalista Charles Nisz vai estar por lá, para quem quiser acompanhar por essa ferramenta. Vou publicar algumas impressões no Twitter do Economia Clara e fecho uma matéria mais tarde para o blog.

A transmissão ao vivo é participativa. Quem quiser assistir, enviar perguntas e fazer comentários pelo chat, pode acessar a página do Roda Viva.

Read Full Post »

Já falamos aqui da expressão “grande demais para falir”, argumento por trás das ações do governo para salvar instituições financeiras da bancarrota. Essa crise trouxe à tona uma adaptação: “interconectado demais para falir”. Ela refere-se ao impacto da quebra de uma instituição financeira sobre outras, que leva a um contágio negativo pela economia.

O apoio financeiro para compra do banco de investimentos Bear Stearns pelo JPMorgan Chase, em março do ano passado, por exemplo, foi justificado pelo Banco Central norte-americano, o FED, com o contágio esperado de uma falência.

A expressão diz muito sobre as inovações financeiras que levaram à crise. Parte-se do crédito ao consumidor, muitas vezes dado sem critérios. Os bancos passam esse risco para a frente, para poderem emprestar mais. A incerteza dos pagamentos do empréstimo inicial é assimilada por instituições financeiras pouco reguladas. Tudo funciona muito bem até que o ponto de partida revela-se frágil: o tomador de crédito diz que não pode pagar.

A propaganda da Gazeta Mercantil brinca com a rede complexa que se forma. Só faltou mostrar o que ocorre quando a fita arrebenta…

Read Full Post »

O presidente Lula chamou de trambiqueiros os empresários brasileiros que, segundo ele, quiseram ganhar dinheiro fácil no mercado financeiro, aumentando o tamanho da crise no país. Ele referiu-se aos empresários brasileiros que aplicaram em derivativos, em discurso nesta quinta-feira no Seminário Empresarial Brasil-Turquia.

Lula afirmou que “os empresários já não se contentavam de ganhar o que estavam ganhando e acharam que era possível ganhar um pouco mais, fazendo trambique”. Fez referência a “algumas empresas importantes” que tiveram problemas sérios com isso. Leia-se: Sadia e Aracruz.

O derivativo recebe esse nome porque seu preço deriva de outro ativo. O presidente falava sobre os derivativos de dólar. Empresas exportadoras utizam esse produto financeiro como proteção, o chamado hedge. A ideia basica é estar no futuro em uma posição inversa à do presente. O mecanismo garante que, caso elas estejam em desvantagem na exportação, por uma valorização do dólar, tenham vantagem no mercado futuro.

Quando usado como um seguro, o derivativo pode reduzir lucros, mas nunca trará prejuízo. Acontece que muitas empresas brasileiras atuaram no mercado futuro além do que precisavam para garantir a atividade real. Elas quiseram ganhar dinheiro apostando na valorização do real. A partir daí, a operação era puramente especulativa.    

Os derivativos são muito procurados por especuladores porque permitem alta alavancagem, ou seja, é possível ganhar muito com pouco dinheiro. As operações na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) brasileira, por exemplo, exigem que uma pequena margem seja depositada. Acontece que os ganhos e as perdas são sobre o valor apostado, muito superior.

O fato é que não é preciso ser exportador e provar a necessidade de seguro para fazer um contrato futuro. Ou seja, especular em derivativos não é proibido. Com base na definição do dicionário Aurélio, que trata trambique como “negócio fraudulento”, o presidente foi longe demais com a afirmação.

Isso não exclui uma necessidade: o mercado de derivativos tem que ser acompanhado de perto pelo governo, com regulamentação. É exatamente por causa do risco de altas perdas e do contágio pela economia que esse tipo de atividade tem sido a primeira, entre as envolvidas na crise econômica, a receber propostas concretas e leis aprovadas nos EUA.

Read Full Post »

Edmund, esposa e filha em frente à casa da hipoteca   

Edmund Andrews, esposa e filha em frente à casa que teve de ser devolvida

“Se tinha alguém que deveria ter evitado a catástrofe hipotecária, esse alguém era eu”. Assim o repórter de Economia do The New York Times Edmund Andrews começa o artigo publicado há uma semana. A experiência pessoal do jornalista virou livro e ajuda a entender a dinâmica que levou ao colapso.

Edmund estava longe de ser um agente mal informado. Era autor de artigos de alerta sobre o aumento das hipotecas e tinha feito parte das coberturas da crise financeira asiática, em 97, do colapso russo, em 98 e da bolha da internet, em 2000.

Ainda assim, em 2004, juntou-se a milhões de outros americanos no que hoje sabemos ter sido uma farra de imóveis sobrevalorizados e hipotecas imprudentes. Ele tinha 48 anos e sua noiva estava de mudança para Washington. Eles iam precisar de uma casa com espaço suficiente para os filhos dos casamentos anteriores.

O casal encontrou a casa, de 460 mil dólares. A essa altura, ele pagava 4 mil dólares de pensão por mês para a ex-mulher. A noiva ainda não tinha encontrado emprego, de forma que restavam 2.777 dólares para todas as despesas.

Edmund diz que, em qualquer momento da história a ideia de que, alguém como ele, pudesse pegar emprestado mais de 400 mil dólares pareceria insano. Mas aquele não era qualquer momento. O agente imobiliário indicou um gerente da American Home Mortgage Corporation, Bob Andrews. A companhia tinha se especializado em atender a pessoas com bom histórico de crédito, mas que queriam esticar as finanças um pouco além do que a renda permitiria.

Bob disse que o histórico do casal era quase perfeito e que estavam qualificados para um empréstimo de 500 mil dólares. Preocupado, Edmund falou sobre a pensão. O gerente explicou que se o cliente queria comprar uma casa, ele que tinha que decidir se poderia arcar com isso. Afirmou que estava ali para viabilizar sonhos. 

O agente esbarrou em um problema: a hipoteca da outra casa, que a ex-mulher de Edmund pagava. A solução foi rápida, com uma taxa de juros um pouco mais alta. Segundo o jornalista, a empresa parecia implorar para que levasse o dinheiro.

O pagamento inicial era de 2500 dólares por mês e daria um salto substancial no quinto ano. A expectativa era de que, até lá, a casa valesse mais e pudesse ser refinanciada.

O choque de realidade veio cinco meses depois, quando Edmund percebeu que só tinha 196 dólares em conta e que seu salário, que entraria no dia seguinte, estava comprometido com a hipoteca. A esposa conseguiu um emprego e ganhava 2.400 dólares por mês, mas o casal gastava muito mais. As dívidas acumularam-se nos cartões de crédito.

Bob apareceu com um novo esquema. Com base na casa, que tinha subido de valor, foi possível fazer uma nova hipoteca, grande o suficiente para pagar os cartões de crédito. Os pagamentos mensais pulariam para 3.700 dólares, mas só começariam em três meses. Até lá, os cartões de crédito teriam sido pagos e o histórico limpo permitiria fazer um empréstimo mais barato.

O casal e as dívidas, que viraram motivo de brigas frequentes

O casal e as dívidas, que viraram motivo de brigas frequentes

Depois de um tempo de tranquilidade, a mulher perdeu o emprego e os atrasos levaram a cobranças diárias dos bancos. Em outubro de 2007, Edmund entrou em pânico ao perceber que tinha o pagamento hipotecário de 3.271 em vista, multas de trânsito atrasadas, promessa de corte da energia elétrica, boletos de TV a cabo, internet e telefone e faturas de cartão de crédito que não cabiam no orçamento. 

Por fim, quatro anos depois do empréstimo inicial, os dois receberam em casa uma educada carta do banco JP Morgan Chase, que advertia sobre a possibilidade de perderem a casa.

Veio a crise. A American Home quebrou de um dia para o outro. O segundo emprestador de Edmund foi forçado a sair do negócio da hipoteca. Sobrou o Morgan Chase, que tinha repassado o risco para outras empresas. 

O mundo desmoronava juntamente com o casal. O Bear Stearns e o Lehman Brothers sumiram de cena. A AIG, conglomerado de seguros, recebeu o maior financiamento de dinheiro do contribuinte da história. O jornalista percebeu que todos tinham sido derrubados pela mesma loucura hipotecária que tinha infectado a sua vida.

Oito meses depois do último pagamento de prestação, Edmund ainda tenta entregar a casa, mas o banco não retorna as ligações. Segundo a secretária, cada analista tem cerca de 500 mutuários com problemas para atender.

O jornalista do NYT afirma que não foi ludibriado nem hipnotizado por ninguém. Disse que cada participante dessa loucura tinha seus motivos. Os gerentes ganhavam altas comissões e os compradores buscavam a primeira casa, algo maior ou uma vizinhança melhor. Segundo ele, alguns foram gananciosos, alguns estavam desesperados e outros ainda foram enganados.

O artigo completo, em inglês, é bastante longo, mas pode ser lido na página do The New York Times. Você também pode acompanhar as novidades do blog pelo Twitter.

Read Full Post »

Older Posts »