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Posts Tagged ‘câmbio’

Desde terça-feira, o estrangeiro que quer comprar ações das empresas ou títulos do governo brasileiro tem que pagar uma taxa. O Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), de 2%, tem causado enorme polêmica.

A justificativa do governo brasileiro é evitar a valorização excessiva do Real, que prejudica os exportadores brasileiros (veja o motivo). O Brasil destacou-se em meio à crise internacional e muitos dólares têm entrado no mercado para investimento, principalmente em ações. O dólar torna-se mais acessível no mercado interno e, assim, mais barato.

O jornal Financial Times defendeu a medida hoje em editorial. Afirmou que o fluxo excessivo de capital para o mercado pode trazer mais estragos que benefícios e que é preciso evitar uma bolha, outra justificativa do governo para criar a taxa. O jornal apresentou um dado: a média de investimento direto externo no país em agosto foi a metade de um ano atrás, enquanto os fluxos para carteiras de investimento mais que duplicaram.

O investimento direto, que vem caindo, não vai ser taxado. Esse é o caso quando o estrangeiro passa a ter controle total ou parcial sobre uma empresa brasileira, com o objetivo de participar da gestão. Já o investimento de portfólio, que vem subindo e passou a ser taxado, é considerado mais volátil, com intenção apenas de lucrar com o sobe e desce das ações. Muitos questionam seus benefícios para o país, já que, ao menor sinal negativo, eles saem em massa, provocando movimentos rápidos no câmbio.

O imposto faz com que, para ser vantajoso investir no país, seja necessário deixar o dinheiro mais tempo por aqui. E é exatamente essa uma das principais críticas à medida. Entidades defensoras do mercado financeiro defenderam que a taxa não é suficiente para impedir a valorização do Real e que ainda pode prejudicar a captação de recursos pelas empresas, que vão ter mais dificuldade para vender ações.

A medida acabou em briga até dentro do governo. O ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, disse hoje que não haverá benefício para o exportador, só a arrecadação é que vai aumentar.

Conselheiro informal do presidente Lula, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo afirma que os críticos da taxa defendem interesses próprios e que ela dificulta sim o ingresso de capitais. Ele destaca o fato de a moeda valorizada gerar no exterior empregos que poderiam ser brasileiros. Isso porque nossas exportações ficam prejudicadas, enquanto as importações são beneficiadas. Belluzzo engrossa, entretanto, o coro sobre a insuficiência da medida.

Parece haver certa unanimidade de que a influência sobre o câmbio não será significativa. Há, inclusive, manobras que permitem aos estrangeiros investir em ações brasileiras sem pagar o IOF. No primeiro dia da medida, o Real desvalorizou-se, mas voltou a subir logo no dia seguinte e permaneceu estável nesta quinta-feira.

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Índice Big MacDois hamburgueres, alface, queijo, molho especial, cebola, picles num pão com gergelim… O sanduíche da rede McDonald`s tem tal alcance internacional que deu origem a um indicador econômico: o índice Big Mac.

O índice é usado para avaliar se a moeda de um país está sobrevalorizada ou subvalorizada em relação ao dólar. No nosso caso, por exemplo, o último índice indicou que o Real está mais valorizado em relação ao dólar do que deveria.

O cálculo baseia-se na controversa teoria da Paridade do Poder de Compra. Segundo ela, o câmbio estará na posição correta quando o preço de um bem for o mesmo se convertido para qualquer moeda. Por isso usar o Big Mac: ele é vendido de forma praticamente padrão em todo o mundo.

Para se chegar ao índice, parte-se de uma lista com os preços do Big Mac em vários países. O valor é convertido para dólar. No último índice, divulgado na quinta-feira, o sanduíche brasileiro custa o equivalente a 4 dólares e dois centavos. Aí compara-se com o preço do sanduíche nos Estados Unidos: 3 dólares e 57 centavos.

O Big Mac está mais caro no Brasil. Como, pela teoria, o Big Mac vale o mesmo em qualquer lugar, a conclusão é que a moeda brasileira é que vale mais do que deveria. Ou seja: está sobrevalorizada.

Veja a tabela abaixo, publicada na The Economist. As barras que crescem para a direita  levam à conclusão de moedas sobrevalorizadas e as da esquerda de subvalorizadas. 

 Índice Big Mac

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Há menos de uma semana, um tio me perguntou o que explicava a recente valorização do real. Vieram à minha mente vários artigos e matérias lidos recentemente que explicam a oscilação com dados, tabelas e gráficos completamente diferentes.

O artigo do economista Delfim Netto no Valor Econômico de hoje acalmou minha confusão mental. Uma frase genial resume tudo: “Existem três causas que levam à loucura: o amor, a ambição e o estudo das taxas de câmbio”.

Segundo o professor, as análises só conseguem explicar um curto período de observação. Logo em seguida, as oscilações contrariam os modelos.

O economista afirma que a melhor explicação para a valorização do real no momento é a liberdade do movimento de capitais. Ou seja, o dólar entra no país atraído principalmente pela expectativa de rendimento muito superior à do mercado internacional. Mas esse é apenas um dos fatores.     

Delfim Netto critica analistas e autoridades que usam “clara demonstração de saber e arrogância” quando são questionados sobre as flutuações do câmbio. Muitos apelam para o que chamam de fundamentos, uma palavrinha usada com frequência por economistas que não querem explicar algo.

Portanto, quando você ouvir um economista dizer que os fundamentos explicam algo, não deixe de perguntar: que fundamentos?

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É só o Real começar a valorizar-se que os protestos de exportadores multiplicam-se pelos jornais. Fala-se em prejuízos à indústria nacional e em produtos menos competitivos no mercado internacional. Aí surge a dúvida: não é bom para todos que a moeda brasileira tenha mais valor? 

Imagine que você seja um exportador de sapatos. Você envia uma quantidade do produto para o exterior e recebe em troca 10 mil dólares por mês. Consideremos uma taxa de câmbio em que cada dólar seja equivalente a dois reais. Suas despesas são em reais e, ao fazer a troca de moedas, você terá 20 mil reais em mãos.

Agora vamos supor uma valorização do real, de tal forma que seja possível comprar 1 dólar com menos dinheiro: 1 real. Se quiser pagar as mesmas despesas do mês anterior, considerando inclusive que os custos com a produção foram mantidos, você terá que cobrar 20 mil dólares pela mesma quantidade de sapatos, o dobro. Seu produto fica mais caro no mercado internacional, com mais chance, assim, de perder para concorrentes. Ou você pode reduzir o preço dos sapatos, com perda de lucro, e até risco de falência.

Por causa da valorização do Real, você também pode ganhar mais concorrentes no mercado interno. O Real forte tem mais poder de compra. Um sapato importado de 100 dólares, que antes custaria 200 reais ao seu comprador, com o novo câmbio sairia por 100 reais. Com o concorrente mais barato, você pode perder o consumidor ou abaixar o preço também, perdendo lucro. Isso considerando, por simplicidade, que os dois produtos são substitutos e que não há preferência por marca, por exemplo.

A valorização da moeda e a consequente concorrência dos produtos estrangeiros pode ser positiva para o consumidor no sentido de reduzir os preços. Pode, entretanto, ser destrutiva para a indústria local e para os empregos no país se não pudermos, por exemplo, competir com os custos dos produtores internacionais. A questão é polêmica e envolve longos debates sobre eficiência.

Quando o Real desvaloriza-se o efeito é contrário. Importar torna-se mais caro para os brasileiros, o que beneficia os produtores locais. Já os exportadores conseguem oferecer preços mais competitivos no exterior, já que os dólares, ao retornar, viram mais reais, com mais poder de compra por aqui.

Acontece que quanto mais exportamos e menos importamos, ou seja, quanto melhores forem os saldos da balança comercial, mais entram dólares no país. Isso pode levar a uma valorização da moeda, a não ser que esse excesso de dólares saia do país por outro caminho: o fluxo de capitais para investimento no exterior. Mas isso é assunto para outro artigo.

A explicação sobre o câmbio foi inspirada no resultado de uma prova de Introdução à Economia. O professor ficou surpreso com o número de pessoas que errou ao marcar verdadeiro para a questão “A desvalorização cambial favorece os importadores e tende a gerar déficits na Balança Comercial”. Isso mostra que questões que parecem triviais a economistas e jornalistas da área são, na realidade, complexas, e devem ser explicadas. 

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A Sadia, empresa de alimentos conhecida mundialmente, ganhou mais dinheiro com operações financeiras do que com a venda de seus produtos nos últimos seis anos. Foi o que afirmou à jornalista da Folha de S. Paulo, Sandra Barbieri, o ex-diretor financeiro da companhia, Adriano Ferreira, em entrevista nesta quinta-feira. Ele será processado pela Sadia pelo primeiro prejuízo líquido de 64 anos de história: 2,5 bilhões de reais.

Ferreira afirma que leva a culpa para que outros administradores sejam isentos. Segundo ele, a empresa estava ciente de todas as operações e sempre teve vocação financeira, até porque tem uma corretora de valores e uma tesouraria típica. Nos últimos seis anos, as operações financeiras teriam sido responsáveis por 60% dos resultados da empresa.

O prejuízo realizado em 2008 é resultado de uma operação com derivativos de câmbio. A Sadia fazia investimentos em reais, mas a maior parte da receita ligada à produção vinha das exportações, ou seja, em dólares. Assim, era natural que ela garantisse uma proteção contra a desvalorização do dólar (veja a explicação sobre mercados futuros). Essas operações, entretanto, quando feitas por segurança, garantem que não haverá prejuízo. Em caso de desvalorização do real, a empresa teria que pagar pelos contratos futuros, mas a diferença seria recompensada pelos seus ganhos na atividade produtiva: o dólar valorizado permitiria mais ganhos com a exportação.

Como explicar que uma empresa exportadora, com receitas em dólar, perca tanto quando o dólar se valoriza? Pela especulação exagerada. A Sadia passou, e muito, da quantidade de contratos que garantiriam a proteção às receitas de exportação. Nos outros contratos, ela simplesmente apostava na valorização do real. Quando o real começou a cair, no último trimestre de 2008, ela teve que pagar por isso. E como a atividade não-financeira, a produção, já tinha ficado em segundo plano, as receitas com exportação não foram suficientes para cobrir as despesas financeiras.

Segundo Ferreira, a Sadia só teve lucros em alguns anos por causa da área financeira e, até o primeiro semestre de 2008, 80% dos lucros vieram dessas operações específicas. Os resultados da empresa mostram os riscos da financeirização excessiva e do descolamento entre ela e a atividade produtiva.

Este post contou com a colaboração de Frederico Madureira.

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